quinta-feira, 17 de maio de 2012


Era uma noite mais que especial. Lua cheia e uma grande multidão de jovens se aglomeravam em meio à multidão na beira da praia. Era um encontro cristão e ali um rapaz pregava falando da necessidade que tínhamos em viver uma vida com Deus.

Em meio as palavras profundas, Pedro, um jovem surfista, conseguiu fazer a conexão entre a relação que possuía com a vida e a natureza e a existência e presença de Deus.

No final do sermão, antes de finalizar, o pregador faz um convite às pessoas entregarem suas vidas a Jesus. Pedro não teve dúvidas, levantou sua mão em sinal de aceitação.

Outras pessoas também sinalizaram e o pregador os chamou para orar e encaminhar para uma equipe que os acolhia pegando os dados para um convite à igreja no dia seguinte.

Pedro foi lá, preencheu os dados que solicitaram e ficou de aparecer no outro dia pela manhã na igreja lá perto do pico onde surfava diariamente.

No outro dia acordou bem cedo, fez seu surf com um sentimento maravilhoso em seu coração. Sentia nitidamente a presença do Criador das Ondas ao seu lado em cada tubo, em cada manobra que realizava. Ele havia começado a perceber que Deus sempre esteve perto dele e ele não tinha notado. Um surf maravilhoso que foi interrompido devido a hora e o compromisso na igreja.

Correu para casa, tomou banho e partiu em direção a igreja. Lá encontrou alguns colegas da noite anterior. Foi muito bem recebido. Logo tiveram uma reunião de acompanhamento onde um líder se apresentou dando boas vindas. O líder percebeu pelo visual de Pedro que ele era surfista e assim que acabou a reunião o chamou em particular e disse: - Pedro, estou muito feliz que tenha tomado uma decisão tão importante em sua vida. “Agora você faz parte da família de Deus, algo que antes você não fazia parte.”; Pedro ficou logo achando algo errado. Como poder se ele havia começado a perceber que Deus sempre esteve perto dele e ele não havia notado?

Em seguida, o líder disse a ele que estava percebendo que era um surfista: Pedro percebo que você é um surfista e preciso lhe dizer que agora que você é um cristão não pode mais surfar pois isso é coisa de gente pecadora. “- Você precisa abandonar esse surf, pois quem é cristão não pode surfar, afinal isso é coisa do demônio e se você continuar vai para o inferno.

Que loucura! Pensou Pedro. Como pode ser isso? Algo não estava fazendo conexão. Pedro ficou triste e saiu dali frustrado. Havia encontrado algo tão maravilhoso em sua vida que fazia todo sentido para o que vivia e agora precisava largar o que amava fazer. O surf era sua paixão. Como poderia ser algo maligno?
Naquele dia resolveu dar um tempo naquele lance de igreja e retornou a praia. Se não dava para seguir a Jesus sendo surfistas preferiria continuar da forma que era.

Quando estava na praia, triste, outro surfista quarentão percebeu que algo estava errado com aquele garoto. Chegou mais perto para conversar. Seu nome era João.

- Olá rapaz, meu nome é João qual o seu?  - Pedro, respondeu.
- Vejo que está triste e com um mar desses na nossa frente bombando. O que há de errado.
Pedro contou toda a história. Disse que não entendia como antes se sentia no céu, no paraíso e agora o que era paraíso para ele havia virado inferno.

João olhou com amor para aquele garoto que havia sido bombardeado por valores equivocados em relação a Deus. Estava na cara que havia freqüentado um lugar onde o amor e a graça de Deus não haviam sido compartilhados. Sem dúvidas, um dos maiores males dos nossos dias: relacionar o amor de Deus a condições, posturas de ser.

João disse a Pedro que essa questão sobre céu e inferno era muito complexa. Que tudo isso era uma tentativa do ser humano de conter as pessoas em meio a uma estrutura de domínio.  

João complementou dizendo que Céu, Paraíso, é estarmos aqui na terra vivendo ao redor das pessoas que amamos e amando as pessoas que são injustiçadas. Paraíso e vivermos uma vida bela até o último dia. Ser lembrado pelos amigos como uma pessoa que fez a diferença a partir dos valores que viveu. Isso é viver um Paraíso e o surf de Pedro sem dúvidas era o ambiente onde ele poderia amar as pessoas que se identificavam com seu estilo de vida.

O inferno, disse João, é justamente não vivermos ao redor de quem amamos. É vivemos uma vida voltada somente para nós mesmos sem valorizar o outro. Sermos egoístas e usarmos as pessoas ao invés de amarmos. Isso nos leva a chegar no fim da vida vazios, sem pessoas com boas lembranças sobre nós mesmos. Vivermos uma vida onde não fizemos diferença por onde passamos. Inferno é você Pedro deixar de viver seu surf e buscar ser alguém que você não é. Isso é inferno.

João completou: - Pelo que vejo você teve um encontro com o Criador das Ondas e isso é muito belo. Você não precisa provar mais nada para ninguém. Você já provou para Deus quem você é e Ele morreu por você em Jesus. Não busque aceitação das pessoas seja você mesmo. Isso sim agrada o coração do Criador.

Pedro deu um abraço naquele estranho como se estivesse dando um abraço no próprio Jesus. Sem dúvidas o Criador das Ondas fez de João uma expressão do seu amor na vida de Pedro. Agora ele estava entendendo que nada que fizesse poderia expressar o Amor que Deus tinha por ele.


Pedro seguiu para dentro do mar morto de feliz entendendo que o que precisava fazer era viver o amor que Deus possuía por ele. Viver esse amor e expressá-lo para os amigos.

Boas Ondas

Em homenagem ao meu grande amigo Lucas Lujan, companheiro de caminhada.



 Por: Carlos Bezerra



quinta-feira, 3 de maio de 2012

Recomeço



Mais um dia raiava e no quarto de João tudo parecia diferente. À medida que seus olhos iam acordando vinha em sua mente sua existência  e tudo que se passava com sua vida. Começou a se lembrar da noite passada. Mais uma vez se entregou ao seu inferno. Mais uma vez seu corpo fraquejou e ele mergulhou na ilusão do prazer que termina com um abraço do vazio.

Sua saúde não é mais a mesma. Sua aparência está massacrada pelas recaídas e noites que o tem destruído. Como pode algo que parecia lhe completar abrir um buraco sem tamanho? Como pode tudo ficar pior do que antes? Como pode meus valores ser derretidos pela necessidade que consome minha alma? Se o inferno existe ele está dentro de mim; pensa João. Não agüentava mais aquele vazio angustiante que lhe enchia a alma. Aquele calor que não era saciado por nada. Porque vacilei novamente? Como posso ter deixado as coisas acontecerem novamente?

Por mais que tivesse momentos de lucidez e coerência ele acabava sendo enganado por seu organismo. Sua mente se tornou escrava e ele não era mais dono do seu ser. Perdeu sua liberdade e vivia uma prisão sem muros. Tantas clínicas, tantas esperanças que naufragaram. A família perdeu a credibilidade nele. Ninguém mais confiava em suas palavras.

Logo agora que parecia que tudo ia dar certo; pensou. Logo agora que estava conseguindo viver sem algemas.

O dia começava e o peso de uma vida, de escolhas e contingências lhe levavam a perceber que estava aprisionado. Parecia até aquela correnteza que fica nos puxando para dentro do mar quando queríamos sair da zona de arrebentação. Parecia até Fernando de Noronha storm quando, se cairmos, o melhor é remar para o outside.

Lá estava ele aprisionado pelas correntezas da sua mente, da sua vida.

O jogo não havia terminado. Ele estava vivo e mais um dia começava. Subitamente veio a vontade de encarar mais uma vez o desafio de uma clínica. Mais uma vez entraria em um mundo “perfeito” e sem “perigo”. Será que encararia bem a vida quando saísse? Essa resposta ninguém poderia dar senão ele mesmo.

Enfim, João usou de graça consigo e se permitiu encarar novamente o tratamento, a prisão de quem escolheu esses caminhos. Ao menos ainda possuía seus pais e eles estavam ali, mesmo desacreditados, querendo lhe recuperar. Ali também estava o Criador das Ondas olhando para ele e dizendo que se levantasse e seguisse sua caminhada. A vida continua e enquanto houver vida há esperança de um dia melhor.

Como disse nosso companheiro de caminhada cristã: Quem estiver de pé cuide para não cair. Cuidemos uns dos outros para que a vida possa valer a pena.

Boas Ondas


 Por: Carlos Bezerra / Pena / Surfbeat

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